domingo, 26 de julho de 2020

Florestan Fernandes, Cientista Social e Cidadão (Mestre faria 100 anos em julho/2020)

Florestan Fernandes nasceu em 22 de julho de 1920 na cidade de São Paulo e faleceu em circunstâncias dramáticas, por erro médico em 1995. Não era filho nem da alta, nem da pequena burguesia. Órfão, trabalhou desde a infância para manter a si mesmo e à mãe. Seus estudos básicos foram muito prejudicados por essa razão: não completou o primário e teve de fazer o curso supletivo porque não pôde cursar o secundário. Apesar da vida pessoal e familiar difícil e de formação básica precária, ou talvez por causa disso mesmo, chegou à universidade aos 21 anos. Entre 1940 e 1951 fez licenciatura e bacharelado em ciências sociais, na USP, e o mestrado e doutorado em sociologia e antropologia na Escola Livre de Sociologia e Política. Em 1953 tornou-se livre docente e, em 1964, professor catedrático da USP. Florestan Fernandes escreveu reflexões teóricas acerca das ciências sociais e pesquisas sobre a integração do negro na sociedade de classes. Enquanto professor da USP foi professor e mentor de vários intelectuais e cientistas sociais como Fernando Henrique Cardoso, O. Ianni, E. V. da Costa. Em 1969, foi aposentado compulsoriamente pela ditadura militar, revelando-se um dos intelectuais mais lúcidos e críticos do regime militar. Foi professor visitante nos EUA e Canadá. Como militante político, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e se elegeu deputado federal.

Considerado o patrono da sociologia no Brasil, Florestan Fernandes defendia uma sociologia militante. Para ele, o sociólogo é um cientista e cidadão. Podemos verificar isso em todas as suas obras nas quais sempre se posiciona com forte visão marxista. Seu pensamento é radicalmente crítico e quer apreender de fato a realidade brasileira no que ela tem de mais peculiar. Sua maior obra foi A Revolução Burguesa no Brasil (na busca de uma formação decente, li, reli e releio) na qual designa o processo de consolidação do capitalismo no Brasil, ou seja, a revolução burguesa no Brasil seria um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas, psicoculturais e políticas que implantaram no Brasil a ordem social capitalista.

Na sua visão radical do Brasil, a categoria que mais caracteriza a especificidade do processo histórico brasileiro é a da escravidão. Ela deixou marcas profundas nas relações sociais e na cultura do país. Florestan Fernandes examina o tema pelo aspecto da resistência do escravo, a sua rebeldia e a sua capacidade de transformar a sociedade brasileira. O tema da escravidão passada ligava-se ao da "revolução social"que viesse abolir as desigualdades sociais no presente-futuro. Discutir o tema da escravidão no passado significava lutar pela concretização da sua abolição no presente-futuro. 

Apesar de ter pesquisado e conhecido profundamente a dura realidade, Florestan Fernandes termina sua análise ainda otimista e utópico. Sonha ainda com uma sociedade brasileira integrada racionalmente, emancipada, autônoma, livre, independente e moderna, desenvolvida, democrática, avançada objetiva e subjetivamente. E para ele, o sujeito criador desse Brasil novo não será a burguesia brasileira, que, por ser dependente, é basicamente egoísta e autoritária, mas o proletariado e o campesinato, as maiorias excluídas - mulheres, negros, crianças, estudantes, enfim, os cidadãos brasileiros. 

No país do desembargador que dá carteiraço em francês e, quando questionado por colegas mulheres, vê os processos arquivados misteriosamente, as utopias de Florestan Fernandes são letras mortas. Ainda não enterramos nosso passado patriarcal, machista, escravista e elitista. As reformas de base também não se consumaram. O Brasil continua continua a ser um projeto incompleto de modernização e igualdade.

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