quarta-feira, 29 de julho de 2020

Pessoas magras mentem

Esse é um tempo de magros. Dias atrás, reencontrei um amigo que não via há anos e ele estava com sua esposa que está grávida! O João vai ser pai. O que significa que serei "tio". Cumprimentei- o, dei-lhe um forte abraço e bati em suas costas taptap, e de repente lhe disse:

— Pô, tu estás mais magro.

O rosto do João resplandeceu como se ele tivesse uma lanterna pendurada no queixo. Sorriu seu melhor sorriso, um sorriso de 28 dentes. Baixou os olhos para a barriga e a apalpou.

— Acha mesmo? — perguntou-me, incrédulo.

Eu:

— Acho, ué.

O João inflou o peito:

— Muito obrigado!

Obrigado, agora vê. Digo para um sujeito que ele está magro e ele me agradece. Ou seja: magreza é elogio. Quer agradar alguém? Diga:

— Você é uma pessoa magra.

Quer conquistar uma mulher?

— Para mim, você é a pessoa mais magra desse mundo. Nunca existiu uma pessoa tão magra como você, na minha vida.

Quer lhe dar votos de bom Ano-Novo?

— Desejo muita magreza para você em 2021.

Não era assim, antes. Minha avó vivia comentando:

— Encontrei o Tibúrcio, ontem. Está gooordo, boniiito. — Desse jeito, com três ós e três is. Eu podia imaginar o Tibúrcio, redondinho, vermelho e sorridente, a prosperidade de calça de tergal e suspensórios.

Só que tem o seguinte: os magros mentem. Não todos os magros, verdade, mas os ex-gordos. Você se encontra com um amigo que era gordo, e se surpreende — o cara está que é só o couro e o osso. Só o buraco e catinga, de tão magro. Espanto:

— Nooossa, que regimão, ahn? O que você deixou de comer?

Aí, sabe o que ele diz? Que come de tudo! Jura que não deixou de comer nem carnes, nem doces, nem massas, nem mesmo torresmo. Daqueles bem crocantes acompanhando uma cerva estupidamente gelada.

— É que tenho feito muito exercício — se exibe o ex-gordo.

CONVERSA! O ex-gordo está sofrendo, está passando a alface e chicória e água mineral. Sem gás. Pobre ex-gordo, tudo o que ele queria era um medalhão de picanha gorda, uma panela de feijoada, uma barra de chocolate, um bombom com licor, um quindão, que ex-gordo adora doce.

Por que, então, ele mente? Deixa que respondo: por vergonha. O ex-gordo tem vergonha do preço que paga para satisfazer a própria vaidade. A vaidade só é explícita quando é barata.

domingo, 26 de julho de 2020

Florestan Fernandes, Cientista Social e Cidadão (Mestre faria 100 anos em julho/2020)

Florestan Fernandes nasceu em 22 de julho de 1920 na cidade de São Paulo e faleceu em circunstâncias dramáticas, por erro médico em 1995. Não era filho nem da alta, nem da pequena burguesia. Órfão, trabalhou desde a infância para manter a si mesmo e à mãe. Seus estudos básicos foram muito prejudicados por essa razão: não completou o primário e teve de fazer o curso supletivo porque não pôde cursar o secundário. Apesar da vida pessoal e familiar difícil e de formação básica precária, ou talvez por causa disso mesmo, chegou à universidade aos 21 anos. Entre 1940 e 1951 fez licenciatura e bacharelado em ciências sociais, na USP, e o mestrado e doutorado em sociologia e antropologia na Escola Livre de Sociologia e Política. Em 1953 tornou-se livre docente e, em 1964, professor catedrático da USP. Florestan Fernandes escreveu reflexões teóricas acerca das ciências sociais e pesquisas sobre a integração do negro na sociedade de classes. Enquanto professor da USP foi professor e mentor de vários intelectuais e cientistas sociais como Fernando Henrique Cardoso, O. Ianni, E. V. da Costa. Em 1969, foi aposentado compulsoriamente pela ditadura militar, revelando-se um dos intelectuais mais lúcidos e críticos do regime militar. Foi professor visitante nos EUA e Canadá. Como militante político, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e se elegeu deputado federal.

Considerado o patrono da sociologia no Brasil, Florestan Fernandes defendia uma sociologia militante. Para ele, o sociólogo é um cientista e cidadão. Podemos verificar isso em todas as suas obras nas quais sempre se posiciona com forte visão marxista. Seu pensamento é radicalmente crítico e quer apreender de fato a realidade brasileira no que ela tem de mais peculiar. Sua maior obra foi A Revolução Burguesa no Brasil (na busca de uma formação decente, li, reli e releio) na qual designa o processo de consolidação do capitalismo no Brasil, ou seja, a revolução burguesa no Brasil seria um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas, psicoculturais e políticas que implantaram no Brasil a ordem social capitalista.

Na sua visão radical do Brasil, a categoria que mais caracteriza a especificidade do processo histórico brasileiro é a da escravidão. Ela deixou marcas profundas nas relações sociais e na cultura do país. Florestan Fernandes examina o tema pelo aspecto da resistência do escravo, a sua rebeldia e a sua capacidade de transformar a sociedade brasileira. O tema da escravidão passada ligava-se ao da "revolução social"que viesse abolir as desigualdades sociais no presente-futuro. Discutir o tema da escravidão no passado significava lutar pela concretização da sua abolição no presente-futuro. 

Apesar de ter pesquisado e conhecido profundamente a dura realidade, Florestan Fernandes termina sua análise ainda otimista e utópico. Sonha ainda com uma sociedade brasileira integrada racionalmente, emancipada, autônoma, livre, independente e moderna, desenvolvida, democrática, avançada objetiva e subjetivamente. E para ele, o sujeito criador desse Brasil novo não será a burguesia brasileira, que, por ser dependente, é basicamente egoísta e autoritária, mas o proletariado e o campesinato, as maiorias excluídas - mulheres, negros, crianças, estudantes, enfim, os cidadãos brasileiros. 

No país do desembargador que dá carteiraço em francês e, quando questionado por colegas mulheres, vê os processos arquivados misteriosamente, as utopias de Florestan Fernandes são letras mortas. Ainda não enterramos nosso passado patriarcal, machista, escravista e elitista. As reformas de base também não se consumaram. O Brasil continua continua a ser um projeto incompleto de modernização e igualdade.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Selfie do Brasil

O tempo passa, as tecnologias mudam. Dizia-se uma radiografia para um painel, um aprofundamento, uma imagem detalhada. Hoje, fala-se uma tomografia. Roger Bastide escreveu uma obra-prima, “Brasil, terra de contrastes”. Paulo Prado publicou o seu “Retrato do Brasil”. Eram os tempos de ouro do ensaísmo documentado no país. Encolhemos? Ou temos agora imagens mais nítidas de nossas contradições? O desembargador Eduardo Siqueira, que tentou humilhar um guarda em Santos ao receber uma multa justa por não usar máscara de proteção contra o coronavírus, tirou uma selfie com o Brasil ao fundo.

Siqueira aplicou o famoso “você sabe com quem está falando” tão estudado pelo antropólogo Roberto DaMatta. Ligou para o chefe do guarda, rasgou a multa e consagrou uma frase patética sobre a máscara: “Eu, de hábito, não uso”. Eis o Brasil. Ou parte dele. É o mesmo Brasil que comete infração de trânsito e não quer pagar a multa alegando que se trata de “prática arrecadatória”, “indústria da multa” e outras lorotas do gênero. Tudo isso coroado com o cinismo pedagógico segundo o qual em lugar de multar se deve educar a população. O desembargador de Santos deu vexame. Por quanto tempo ele sustentou a sua prepotência com o auxílio-moradia, um retrato do Brasil de escandalosos contrastes e vergonhosa falta de pudor, empatia e republicanismo?

Pego em flagrante, filmado fazendo sua pornográfica selfie, o magistrado diz-se vítima de armadilha e promete tomar as “medidas cabíveis”. Quais? Só caberiam pedido de desculpas e enfiar a viola no saco. O desembargador rotulou o fiscal de analfabeto. Na cultura bacharelesca falar difícil, usar latinórios, ostentar ou inventar diplomas, sem a devida educação como formação ética, faz parte de um sistema de hierarquia social. O juiz que declara uma greve ilegal ou determina a desocupação de um prédio inútil pode ser o mesmo que recebia auxílio-moradia tendo casa na praia, na montanha e no paraíso. O mesmo que admitia receber o auxílio imoral como compensação por perdas salariais. Eduardo Siqueira tirou a máscara. Nem a colocou.

Bastide e Prado pensavam o Brasil panoramicamente. Uma pista para o que aparece nas selfies de agora: racismo estrutural, elitismo, clientelismo, patrimonialismo, cartorialismo, neocoronelismo, tudo. Já que estou falando em livros que tentaram penetrar nas entranhas do Brasil, com boas intuições e dados nem sempre exaustivos, não há como fugir de “Os donos do poder”, de Raimundo Faoro, ou "A revolução burguesa no Brasil" de Florestan Fernandes ou o mais contemporâneo "A elite do atraso" de Jessé Souza. Ah, não posso deixar de destacar o subtítulo do livro de Paulo Prado: “Ensaio sobre a tristeza brasileira”. Não é o que sentimos quando um desembargador dá carteiraço para mostrar quem são os “donos do poder”? Sofrerá punição? Será aposentado compulsoriamente com salário integral? O modernista Paulo Prado pretendia que quando tudo está errado, o melhor corretivo é o apagamento de tudo que foi mal feito”. O tempo das revoluções passou. Quando passará o tempo do “você sabe com quem está falando”?

sexta-feira, 17 de julho de 2020

E a corrupção?

Nas ruas, em combate contra corrupção, encontravam-se diversos movimentos, pessoas, siglas: MBL, adeptos do deputado Jair Bolsonaro, lavajatistas, defensores do Estado mínimo, empresários nacionalistas, blogueiros conservadores, praticantes do ativismo judicial, pregadores da volta aos valores tradicionais. O “antigo regime” foi derrubado. Instalou-se a “nova política”. Como andam as coisas agora? Assim: dois membros do MBL foram presos. São acusados de lavagem de dinheiro. O MBL nega que eles pertençam aos seus quadros. Não lembra o passado?

Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, como é amplamente sabido, é acusado de “rachadinha”, tendo como operador Fabrício Queiroz, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. “Rachadinha” é como se chama a mordida nos salários dos funcionários do gabinete de um político. Queiroz praticou os atos. O dinheiro foi parar nas suas mãos. O chefe nega ter conhecimento dos fatos. Vem travando uma luta encarniçada para barrar as investigações. Queiroz passou um tempo abrigado na casa do advogado de Flávio e de Jair Bolsonaro. Questionado, o doutor dizia nem conhecer o tal Queiroz. Depois que o hóspede foi preso, o advogado continuou a mentir. Por fim, alegou razões humanitárias para proteger o amigo dos amigos.

Wilson Witzel era um juiz desconhecido. Elegeu-se governador do Rio de Janeiro nas costas dos Bolsonaro. Pregava contra a corrupção. Falava de moral e bom costumes. Instalado no poder, já recebeu visita da Polícia Federal. Tem ex-secretário preso por suposto golpe na compra de equipamentos para combater a covid-19. A própria mulher do governador está metida num rolo escabroso. Witzel virou inimigo de Jair Bolsonaro. Estão separados pela eleição à presidência da República em 2022. O governador do Rio tem visto seus sonhos virar pó. Bolsonaro mantém os planos. Talvez precise mudar um pouco o discurso.

Wilson Witzel era um juiz desconhecido. Elegeu-se governador do Rio de Janeiro nas costas dos Bolsonaro. Pregava contra a corrupção. Falava de moral e bom costumes. Instalado no poder, já recebeu visita da Polícia Federal. Tem ex-secretário preso por suposto golpe na compra de equipamentos para combater a covid-19. A própria mulher do governador está metida num rolo escabroso. Witzel virou inimigo de Jair Bolsonaro. Estão separados pela eleição à presidência da República em 2022. O governador do Rio tem visto seus sonhos virar pó. Bolsonaro mantém os planos. Talvez precise mudar um pouco o discurso.

Deputados bolsonaristas são convocados a explicar o financiamento de atos contra a democracia. Ministros permanecem no governo mesmo tendo engordado currículos com diplomas inexistentes ou tendo alguma condenação em primeira instância. Um ministro, demitido contra a vontade do próprio presidente, para acalmar os ânimos do STF, fugiu para os Estados Unidos com medo de ser preso no Brasil. O desavisado pergunta: e aí, como anda o combate à corrupção no país?

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A ditadura que se fingia de democracia

A diferença entre o historiador e aquele que viveu determinada época costuma ser o conhecimento por investigação sistemática. Alguém pode ter vivido um tempo e não o conhecer profundamente. O que sabe o brasileiro dito comum sobre os bastidores do governo Bolsonaro? Dentro de 50 anos um historiador que debulhe toda a documentação sobre o período atual saberá mais do que a maioria de nós sobre o que estamos vivendo. Nada mais ingênuo do que a pessoa dizer, sem ter sido protagonista, que sabe por ter vivido determinado período. Boa parte dos brasileiros tem quase nenhuma informação sobre a ditadura de 1964.

Os mais jovens desconhecem a ditadura admirada por Jair Bolsonaro por ignorância e falha no sistema educacional. Mesmo entre os mais velhos há distorções provocadas pela própria dinâmica do regime militar, que censurava inforamações, por exemplo, sobre corrupção. A Folha de S. Paulo vem publicando uma série sobre os anos de chumbo brasileiros: golpe, cassação de mandatos, rodízio de generais no poder, fechamento do Congresso Nacional, repressão, “suicídios” induzidos, aposentadoria compulsória de ministros do STF, prisões arbitrárias, extinção de partidos, mudanças nas regras eleitorais para beneficiar a Arena, o partido dos ditadores, senadores biônicos, censura a músicas, peças de teatro, filmes e demais manifestações culturais, censores instalados nas redações dos jornais.

Nada que os historiadores já não tenham contado em centenas de livros. A ditadura não foi um paraíso da segurança nem uma era sem roubalheira. A imagem de tranquilidade foi construída em cima da sonegação de notícias intranquilizadoras. Mesmo assim, não foi possível esconder tudo. De acordo com o historiador Carlos Fico, entre 1968 e 1973, quando a ditadura vivia seu apogeu tenebroso, com sua glória macabra, a CGI (Comissão Geral de Investigações) debulhou 1.153 processos de corrupção. Aprovou 41 confiscos de um total de 58 pedidos. Entre os investigados ou condenados, ‘mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram funcionários públicos. Num único ato, em 1973, chegaram ao Sistema CGI cerca de 400 representações ou denúncias. Muita coisa morreu embaixo dos tapetes.

O historiador Carlos Fico refletiu sobre os obstáculos ao combate aos desvios: “Em primeiro lugar, a impossibilidade de manter os militares num compartimento estanque, imunes à corrupção, notadamente quando já ocupavam tantos cargos importantes da estrutura administrativa federal. Não terão sido poucos os casos de processos interrompidos por causa da identificação de envolvimento de afiliados ao regime”. A Folha de S. Paulo só esqueceu até agora, na sua ótima série, de contar que apoiou o golpe de 1964 e a própria ditadura por muito tempo. Ainda dá tempo até de lembrar que chamou o duro regime de “ditabranda”.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...