quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Bolsonaro na ONU

Jair Bolsonaro não perde viagem. Sempre entra para matar. Na ONU, disparou contra quase tudo que já o atormentou. Foi lá, como um fanfarrão de boteco, para dizer as suas “verdades” aos “comunistas” que costumam frequentar o local. Para júbilo de alguém como o governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, “ mirou só na cabecinha”. Disparou várias rajadas da sua metralhadora contra o socialismo. Alvejou Cuba e Venezuela de peito aberto, como se, estivesse em plena Guerra Fria combatendo o espectro do comunismo em praça pública.
Sugeriu que queimadas da Amazônia podem ter começado com os índios. Garantiu que tudo está bem no Brasil. As más notícias não passariam de mentiras da mídia. Afirmou que governos  brasileiros  anteriores ao seu teriam comprado parte da imprensa. Louvou ditaduras sul-americanas de direita, assegurou que o Brasil esteve à beira do comunismo. Fustigou a ONU na casa da ONU. Combateu globalismo, marxismo cultural e ideologia de gênero. O discurso parecia escrito pelo próprio guru Olavo de Carvalho, que deve ter ficado orgulhoso do pupilo. Bolsonaro foi Bolsonaro como sempre: curto, grosso e profundamente ideológico.
Tropeçou em alguns dados. Números nunca foram o seu forte.  Disse que, em 2013, o PT importou dez mil médicos de Cuba. Foi desmas carado pelos jornais em poucos minutos. No começo, foram apenas 391. No final daquele ano, já eram mais de cinco mil. Mas os dez mil só foram alcançados em 2014. Sustentou que os médicos cubanos entraram no Brasil sem comprovação profissional. A lei exigiu o diploma de curso superior. Chamou o Foro de São Paulo de organização criminosa. É uma aliança de partidos de esquerda. Até o PDT faz parte dela. Reclamou que o Brasil só usa 8% do seu território para a produção de alimentos. Esqueceu-se de incluir a área usada pela pecuária. O total, segunda a ONU, alcança 28,2%.
Gabou-se de que a Amazônia estaria intocada.
A afirmação é tão verdadeira quanto a maioria das promessas de campanha. Cerca de 14% da floresta já não possui a sua cobertura original.
Como um jogador descontrolado, Bolsonaro decuplicou a aposta.  Fez do cacique Raoni um mero joguete nas mãos de interesseiros. O tiro certamente sairá pela culatra. Cresceram as chances de Raoni empalmar o Nobel da Paz. Só declarou amor a Donald Trump. Como jogou para a sua torcida ideologizada, radical e apaixonada, saiu certamente com a sensação de vitória. Diplomatas disseram ao colunista Jamil Chade, da Folha de S. Paulo, que o presidente brasileiro perdeu a última chance ser respeitado no exterior. Bolsonaro se lixa.
Ele quer ser aplaudido pelos amigos do seu condomínio na Barra da Tijuca. Caseiro, quando atua fora, ataca antes de ser atacado.
Como ele é quem conta os gols, acha que venceu de goleada.
No futuro, aos netos, Bolsonaro contará com os olhos ainda brilhando: “Teve um dia em que fui lá na ONU e enquadrei os comunistas. Não escapou ninguém, tá ok.? “ Se os netos duvidarem, ele dirá: “Vocês precisam saber isso daí para que ninguém ataque o vovô”.
Mas Bolsonaro sempre tem munição para mais. Ao enxergar Donald Trump, declarou-se: "I love you". Nunca um presidente brasileiro rastejou tanto.
Trump não correspondeu. Limitou-se a gaguejar um "bom ver você de novo".
Se deixasse, Bolsonaro saltava no seu pescoço e pedia uma selfie.
A mídia internacional não perdoou. O New York Times chamou a fala de Bolsonaro de surreal. Ah, se o presidente brasileiro tivesse a menor ideia do que isso significa.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Bendita Torrada

Era uma manhã rotineira na vida de José Mário. Matemático, professor de faculdade e ateu convicto até o apocalipse, comia religiosamente 2 torradas com manteiga e geléia de morango. (Deus me livre se não houvesse geléia de morango!) Era uma equação simples. Duas passadas de faca na manteiga sem sal e uma colherzinha de geléia aplicada com uma força X, suficiente para espalhar a geléia, mas não o suficiente para quebrar a torrada. José Mário necessitava segurar a torrada com uma força Y= -X, para balancear as forças evitando que a torrada caia no chão. Caso Y>-X, inevitavelmente a torrada cairá com sua face geleística voltada para baixo, exatamente como ocorreu nessa manhã aparentemente rotineira. 

A regra universal que dita a sujeira no mundo desde a gênese diz que se um objeto cai e fica por menos de 5 segundo no chão, o objeto ainda estaria limpo e pronto para o consumo. José Mário, como exímio conhecedor de regras universais e há muito morando sozinho, recupera a torrada do chão e qual sua grande surpresa? Estava lá. Claramente. Milagrosamente nítida. A cara de Jesus Cristo estampada em sua bendita torrada.

O que um ateu faz quando se depara com um milagre? 

A primeira reação de um ateu é a contestação. Como São Tomé, primeiramente desconfia. Não, nada a ver. É coisa da sua imaginação. É como olhar as nuvens e encontrar formas. Mas olhando melhor, a imagem era divinamente clara. Havia até um certo brilho santo ao redor da imagem. Fez-se a luz nas camadas de manteiga. Qual era a chance disso acontecer? Calcula as probabilidades. Menos de 1 bilhão para um de tal evento acontecer com tanta precisão. É, os números estavam contra ele. Justo os números que tanto confiava. Tenta repetir o experimento. 2 pacotes de torradas de imagens disformes. O máximo que conseguiu foi em uma torrada que se olhada de um ângulo específico, até poderia se assemelhar, vagamente, a um coelhinho caolho sem orelhas. Resolveu parar, pois não poderia faltar a geléia de amanhã, e Deus me livre se não há geléia de morango!

Segunda reação de um ateu, a dúvida. E se fosse realmente um sinal divino? Todos esses anos comendo carne vermelha na sexta-feira santa? As vezes que cobiçou a mulher do próximo, as que via revistas de mulher pelada escondido no banheiro ou quando roubou figurinhas jogando bafo… Tudo isso seria uma passagem segura para o inferno? Seria um alerta para que ele começasse a frequentar a igreja? 

Terceira reação de um ateu, a revolta. José não se daria por vencido. Ele não jogaria a batina assim tão fácil. Não seria uma torrada a romper toda a sua (des)crença. Quer briga? Então olha o que eu faço com sua torrada! José aproxima a torrada à boca, lentamente abre sua bocarra e prepara uma grande mordida entre a coroa de espinho e a sobrancelha esquerda de Jesus.

Quarta reação de um ateu, a redenção. Espera! Talvez seja melhor não comer a torrada. Afinal ela caiu no chão. Talvez tenha passado mais dos 5 segundos. Pode haver micróbios. Pode causar dor de barriga. Imagina se dá um piriri. E com piriri não se brinca! Pior que as pragas do Egito! Lavo minhas mãos. Melhor pegar outra torrada.

Resolveu deixar a torrada milagrosa de lado. Mas a cara de Jesus continuava encarando-o. A pulga atrás da orelha ainda coçava. Há de haver uma explicação mais razoável que uma entidade toda poderosa sem ter mais o que fazer além de pregar peças em matemáticos ateus. Existe algum fator que passou despercebido. Algo que dê a luz sobre esse mistério. Olhe atentamente, analise friamente… 

Eureca! 

Como não havia visto isso antes! Era óbvio! A vida volta a fazer sentido. A figura na torrada não é o Jesus Cristo! É o Humberto Gessinger! Claro, por que acreditar em um Ser Supremo invisível, inatingível? O Humberto Gessinger era real, estava ali, ao alcance de todos! É lógico! O Papa é Pop! Quem mais sofreu tantas perseguições e foi crucificado pela crítica? Quem mais ressucitou o Engenheiros do Havaí quando ninguém mais esperava?

Satisfeito, José Mário guardou a torrada junto com os antigos álbuns do Engenheiros e saiu cantarolando. Esse Humberto Gessinger é foda! A Infinitaaaa Hiiiiighwayyyyy…

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...