quinta-feira, 18 de julho de 2019

Infidelidade

– Seu Flávio! O que está acontecendo aqui?!
– Calma aí, seu Gregório! Não vamos fazer um escândalo aqui no meio da rua. Eu posso explicar.
– Não precisa explicar nada! Eu te peguei saindo da banca do seu Matheus! Como ousa a comprar em outra banca de jornal? A minha banca não te satisfaz mais?
– Não é isso seu Gregório. É que eu estava de passagem…
– E resolveu comprar um jornal do seu Matheus rapidinho? É o que todos dizem. Essa geração promíscua! Eu pensei que você fosse diferente.
– Deixe-me terminar de explicar… Eu estava de passagem e parei para comprar um cigarro. Só um cigarrinho, juro! Você sabe que eu sempre compro o jornal de você, né?
– Nem vem com esta história! Então para quê essa sacola?
– Que sacola?
– Esta que você está escondendo aí atrás! Passa para cá!
– Que isso, larga de ser desconfiado seu Gregório! Você não confia mais em mim?
– Deixe-me ver essa sacola! O que? Uma daquelas revistas com DVD?!! Você nunca comprou dessas comigo!
– É que… É que o seu Matheus me deu um desconto.
– Você podia ter falado comigo! Você sabe que também teria dado. Não precisava ir até outra banca! Se lembra daquela vez… snif… Daquela vez que… snif… Você havia perdido aquele número da revista que colecionava… e eu… Eu consegui para você… E é assim que me agradece? Ingrato!
– Mas foi um desconto de 30%!
– E nossos 20 anos de relacionamento? Não contam? Se você tivesse me trocado por uma assinatura eu até compreendia. Iria ser duro, mas entenderia. Sei que é difícil competir com a facilidade da entrega em casa, e ainda com todas aquelas promoções.
– Não, eu nunca faria isso com você.
– Lembra do seu Cláudio? Ele também sempre repetia isso. Não deu 6 meses e o canalha já me trocou por uma assinatura. Quando ele me via fazia questão de atravessar a rua e esconder o rosto, só de vergonha de falar comigo. Mas eu superei. Hoje em dia ele até aparece de vez em quando para comprar uma Veja de domingo. Mas você? Você me trocar por uma revista com DVD do seu Matheus?
– Olha, desculpe seu Gregório. Não pensei em meus atos. Vamos esquecer que isso aconteceu. Confie em mim, prometo que isso nunca mais se repetirá.
– Tudo bem seu Flávio. Desculpe-me também. Acho que me excedi um pouco. Você sempre foi um ótimo cliente.
– Você também é um ótimo jornaleiro! Me dá um abraço aqui!
Seu Matheus que acompanhava a conversa de longe dá uma piscadinha para seu Flávio, este retribui discretamente com um sorrisinho maroto.

Amores Virtuais

Chegou a conclusão de que a única forma de encontrar o seu príncipe encantado era por meio de sites de relacionamentos, especializados em unir pessoas com características semelhantes. Moça tímida, recatada, criada sob o rigor de um pai severo, nunca fora de sair, fazer amigos, paquerar. Encontrar um namorado, dentro de casa, assistindo novela das 6, das 7 e das 8 seria humanamente impossível. Mas chegando perto do fúnebre abismo dos 30  anos, chegou a conclusão de que precisava mudar. E a solução seria acreditar em amores virtuais.
Acessou o site. O primeiro campo a ser preenchido era “Apelido”. Um apelido, meu Deus! Mas que apelido? O apelido de criança? Nem pensar. “Paçoquinha” estava fora de cogitação. Assustaria qualquer pretendente. Ela precisava de algo mais quente, mais sugestivo, mas sem ser extravagante demais. Que tal “Donzela em Erupção”!? Não era o exemplo perfeito de criatividade, mas não deixava de ser sincero. Se não fosse sincera agora, o que dizer depois de iniciar um relacionamento?
Mas na hora de preencher campos como Idade, Altura e Peso, hesitou. Sinceridade demais desgasta a relação, pensou, como uma especialista em relações amorosas. Por isso, diminuiu idade e peso, e aumentou a altura. No campo Cantor (a) Preferido (a), achou que Xuxa ia passar uma imagem ruim. Melhor Elis Regina. Homens gostam de mulheres cultasLivros? Na vida, ela só tinha lido Dale Carnegie. Por isso, arriscou um Patrick Sufind – embora ela tentasse se referir a Patrick Süskind – que fora citado em alguma nota da Cláudia, mês passado. No campo Sonho, chegou a conclusão de que se colocasse a verdade (aquela verdade que cultivava ternamente desde seus 12 anos) de que queria casar e ter uma ninhada de 3 ou 4 filhos, ah, aí sim ninguém se interessaria por ela.
No final das contas, havia mudado tantas características, tantas referências, tantas especialidades que a “Donzela em Erupção” poderia ser qualquer pessoa do mundo, menos ela.
Ficou deprimida ao perceber que, se ela agia dessa maneira, ocultando suas características – encaradas como “defeito” sob os exigentes olhos de mulher que imagina estar fadada à vida monástica – e inventando outras qualidades; sim, se ela agia de tal forma, não seria difícil imaginar que outros agiriam da mesma maneira. Em outras palavras: se recebesse o e-mail dum jovem de vinte e poucos anos, atlético, olhos claros, nominado Poeta Coruscante, deveria entender: coroa desorientado, barrigudo, consumidor assíduo de espetinho e ovo cozido no Bar do Joca, e torcedor fanático do Grêmio Maringá.
Pensou melhor. Bem melhor, por sinal. Fechou o navegador sem salvar seu cadastro, e foi assistir emocionada, a mais uma eliminatória de A Fazenda.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

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