quinta-feira, 25 de junho de 2020

Em abstrato, quem foge tem culpa?

Houve um tempo em que pensadores colocavam o conceito acima do concreto. Era, claro, uma questão conceitual. A realidade empírica estaria contida em conceitos explicativos abstratos. Passou? Restou em alguns espíritos a obsessão pela teoria capaz de tudo explicar. O racismo seria corrigido não por medidas concretas, mas por força de um universalismo abstrato, a força da meritocracia mesmo entre competidores em condições desiguais de disputa. Chega de concretude. Façamos só perguntas em abstrato: se alguém foge é por ter culpa no cartório? Se alguém dá cobertura para uma fuga, torna-se cúmplice?

Quem pratica comprovadamente “rachadinha” pode, sem que isso constitua um crime, ser chamado de ladrão? Quem racha dinheiro público é corrupto? Que minimiza, relativa ou nega por ideologia o papel de um político em caso comprovado de “rachadinha” tem corrupto de estimação? Se recebo em minha casa alguém que deu endereço falso, na condição de “averiguado” em investigação, estou cometendo irregularidade? Se advogo para uma pessoa e dou abrigo na minha casa a alguém que pode comprometer, se for encontrado, meu cliente, estou agindo bem, obstruindo a justiça ou dificultando a revelação de alguma verdade? Cabe a um assessor parlamentar pagar contas do chefe com dinheiro vivo, sem rastros da origem do recurso, inclusive mensalidades escolares de filhos do representante eleito do povo? O que dizer?

Se um miliciano deposita dinheiro na conta de um assessor parlamentar, se o referido assessor, que recolhe parte dos salários dos colegas, paga contas do chefe, se o chefe não saca nem transfere dinheiro para que o subordinado realize os tais pagamentos, o que se deve pensar? É lícito e lógico imaginar que os pagamentos das contas do chefe foram feitos com o dinheiro arrecadado dos seus funcionários ou até com o montante vindo do miliciano? Ou fazer esse tipo de associação é pura maldade política para atingir a honra de um homem? Se uma pessoa recebe sem jamais comparecer a local de trabalho e um dia é convocada a assinar o ponto atrasado para que não a acusem de ser fantasma, isso constitui prova de que o lençol é branco e a pessoa faz “uhhh!!!” quando assina o livro de presenças onde só havia vazio?

Se tudo indica que houve “rachadinha”, pois as coisas têm jeito, forma e evidências de “rachadinha”, achar que não aconteceu equivale a crer em Papai Noel e coelhinho da Páscoa ou a sustentar que não houve mensalão? Se emprego mãe e mulher de miliciano, a quem condecoro com medalha, e o cara bota dinheiro na conta do meu assessor, que paga as minhas contas pessoais e arrecada parte dos salários dos meus empregados, pagos com dinheiro público, posso dizer que nada sei dessas operações e que tudo está na mais perfeita normalidade ou fico na obrigação de apresentar explicações consistentes à opinião pública? Se nada temo, nada fiz, devo abrir meus sigilos e clamar por esclarecimentos ou entrar com uma dúzia de recursos para barrar as investigações? Enfim, abstratamente falando, são minhas dúvidas.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Um pouco de tudo

- Olá tudo bem? Então você é o famoso Cristiano?
- Não tanto quanto eu gostaria.
- Hehehe, bem que seu pai me falou que você era diferente.
- Diferente? Como assim?
- Ah, meio assim, tchop-tchura.
- Tchop-Tchura?
- É, meio assim alternativo…
- Ahhh…
- Mas me fale garoto, no que posso te ajudar?
- Olha Paulo, não sei se meu pai te adiantou alguma coisa. Mas eu estava precisando de um emprego mesmo. Como o senhor trabalha em diferentes áreas achei que poderia ter alguma coisa interessante.
- Sim claro. Faço de tudo pelo seu pai. Um grande homem. Ajuda a todos.
- É, é mesmo.
- Uma vez estávamos pescando no Pantanal e ele salvou minha vida.
- Jacaré?
- Não, ia levar pro rancho uma paraguaia chamada Ramon. Ele que impediu.
- Jura, ele te avisou?
- Não, ele tinha me dado uma daquelas cápsulas de alho para espantar mosquito. Descobri que espanta travesti também.
- Hummm…entendi…
- Mas me fale. No que você gostaria de trabalhar.
- Bem, pra ser bem sincero com o senhor não tenho idéia.
- Não tem idéia? Como assim? Você não é formado?
- Sou sim. Em comunicação social.
- Então, perfeito. Estava precisando de alguém para criar os banners que colocamos nas lojas. Tem um moço do financeiro que faz pra gente, mas não gosto muito. Você pode fazer como eu sempre quis. Te passo o que quero e você cria.
- Hummm…é…pode ser…
- Que foi? Não gostou da idéia?
- Imagina senhor. Gostei sim. Mas é que imagino que o senhor tenha ótimas idéias, seria inútil na empresa. Queria fazer algo que fosse útil de verdade.
- Entendo. Bem, você precisa me ajudar então senhor Cristiano. Do que entende?
- De tudo.
- De tudo? Como assim?
- É sou maníaco por informação, então acabo entendendo um pouco de tudo.
- Então ótimo. É só escolher. Nosso departamento de vestuário está precisando de gente. Você entende de moda?
- Entendo.
- Então pronto, fica na parte de novos designs.
- Olha, eu entendo, mas não sei desenhar nada. O máximo que sairia seria as roupas da Turma da Mônica.
- Hummm…entendo. E tecnologia? Você entende?
- Entendo sim senhor.
- Fantástico. Nosso administrador de redes pediu licença para ir ver a pré-estréia do último filme do Homem-Aranha e nunca mais voltou. Você entende de computadores?
- Entendo sim senhor, mas apesar de conhecer os tipos de servidores, sistema de senhas, permissão de conteúdo e gerenciamento de arquivos, não sei nada de administração de redes. Não controlaria bem o acesso nem a um Pense Bem.
- Hummm…então deixa eu entender…
- Sim.
- Você disse que entende um pouco de tudo.
- Isso.
- Diz que conhece todo tipo de assunto.
- Isso.
- Você por acaso entende tudo de alguma coisa.
- Errr…creio que não.
- Então você não entende é de nada!!!.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...