Houve tempo em que pensei que nosso problema era o gerúndio. As coisas nunca ficavam prontas no Brasil, estavam sempre acontecendo. Vale para o país, vale para as pessoas. O gerúndio está nas nossas mentes e, por consequência, nos nossos atos. "Estou chegando". "Estou fazendo". "Estou terminando". Nada é definitivo para o brasileiro. Tudo está a caminho.
Fernando Pessoa dizia: "Minha pátria é a língua portuguesa". Disse muito com isso. Porque fronteiras você estende ou encurta, nacionalidades você adquire ou até rejeita e raças sequer existem. O que define um povo é a sua língua, porque a língua é a expressão do pensamento e o pensamento é a manifestação da alma. Não é por acaso que o inglês é objetivo, que o francês é romântico, que o espanhol é explosivo, que o italiano é dramático e que o alemão rasca. É porque americanos são objetivos, franceses são românticos, espanhóis são explosivos, italianos são dramáticos e alemães podem ser rascantes.
O brasileiro, o que é? Um procrastinador. O brasileiro deixa para depois, espera um pouco e faz de última hora. Donde, o apreço pelo gerúndio.
O bom da vida é o gerúndio, porque, quando não há mais gerúndio, não há mais nada a fazer: acabou.
Portugueses raramente empregam o gerúndio. Se empregassem, não teriam esgarçado o mundo entre os séculos 15 e 16, e Camões não teria cantado tão belamente que as armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca d'antes navegados, passaram ainda além da Taprobana.
Eu, aqui, estou planejando conhecer a distante Taprobana. Ou seja: também eu, brasileiríssimo que sou, vivo no gerúndio, assumo esse comportamento e não critico mais nossos compatriotas que, quando você pergunta como vão, respondem:
– A gente vai levando.
Ao contrário: concluí que essa é uma prova de sabedoria. Porque, na verdade, todos vivemos no gerúndio, todos vamos levando. Estamos envelhecendo, o mundo está sempre mudando. A vida é um grande gerúndio. Como o gerúndio, ela é uma forma verbal sem ser um verbo, ela é quase um substantivo, mas nem tanto ou talvez muito mais do que isso.
O bom da vida é o gerúndio, porque, quando não há mais gerúndio, não há mais nada a fazer: acabou.
Você se olha no espelho todos os dias e acha que vê a mesma cara. Ilusão. Você não é mais o mesmo, você mudou, porque muda a cada dia, a cada minuto, neste instante deixou de ser o que já foi. Você está em transformação, como tudo o mais a sua volta.
O grego Heráclito dizia que ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes, porque, quando entrar, nem ele nem o rio serão mais os mesmos. Foi um rio que passou em minha vida, cantava Paulinho da Viola. O rio não passou, o rio está passando. O rio é o gerúndio líquido. O Brasil é o gerúndio em forma de um buquê de terra de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Como autêntico gerúndio, o Brasil nunca está pronto. Que bom. Nem eu. Estou me aprontando. Estou aprendendo. Estou vivendo.
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