terça-feira, 22 de setembro de 2020

Minha casa, seu apartamento

 - … que eu fico vendo esse povo aí, apertado. Um em cima do outro feito caixa de sapato. Tudo empilhado.

- Que nada, isso é só um pequeno detalhe perto da comodidade e segurança.
- Que segurança que nada. Você acha que só de estar morando nesses pombais você está seguro? Que ninguém assalta apartamento?
- É, porquê? Não?
- Claro que não! A segurança do seu prédio é proporcional ao grau de instrução do seu porteiro.
- Put…que o par…
- É negão, se o seu porteiro é uma porta, se me permite o trocadilho, você já era; digo, seu apartamento.
- Put… merd… nunca tinha pensado nisso.
- É que eu sou gênio, então eu penso nessas coisas sabe…
- Mas mesmo assim, um sujeito que tém uma casinha, está sujeito – se você também me permite – a qualquer; e digo qualquer tipo de assaltante, é só ter uma casa sem ninguém durante um período do dia e pimba!
- Pimba!
- É, eu não sabia outra palavra… me deixa. O que acontece é que em prédios com porteiros, ainda que medíocres, você sempre tem “alguém” em casa para intervir e até mesmo pegar correspondências, ó só!
- Caixa de correio também pega correspondência.
- Mas não dá bom dia, boa noite…
- Não duvide!
- Qual é a questão então?
- Eu prefiro casa, liberdade de ir e vir. Eu gosto de poder abrir a porta e já estar no meu quintal, jardim, garagem, pegar o carro e passear ou mesmo a pé. Poder pular e gritar quando o meu time ganha o campeonato sem que alguém me interfone por causa do barulho. Eu gosto de poder receber meus amigos, dar uma festinha e terminar a hora que eu quiser sem ter nenhuma vizinha com filho pequeno no apartamento do lado que me ligue por causa da bagunça às 3 horas da matina.
- Ah, tá. Eu já, não; prefiro morar empilhadinho – tem mais calor humano – e sem quintal. Não tenho tempo pra cuidar de planta, mal sobra tempo pra mim! Aprecio o bom futebol mas por razões desconhecidas meu time é o Madureira. Receber amigos eu adoro, mas só para jantar; tenho 37 anos e vamos concordar que festinha não é bem o que eu costumo fazer, além do que, não posso beber nada alcóolico por causa do fígado.
- E se a vizinha com a criança ligar pra reclamar, o que você faz?
- Meu apartamento é um por andar…

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Pouco, muito, tudo.

 Outro dia, vi imagens de homens atravessando um riacho, com água pela cintura, ou acima dela, para levar material escolar a lugarejos nos confins do Brasil em tempos de pandemia de coronavírus. Parecia uma expedição minguada de desbravadores desgarrados dos sertões, algo como nas imagens do antropólogo Claude Lévi-Strauss descobrindo nossos territórios indígenas nos anos 1930. Na travessia recente dos carregadores de livros para alunos distantes havia um pouco de heroísmo e de melancolia nas cenas capturadas por uma câmera indiscreta. Lembrei de professores que fazem, muitas vezes, com sol ou chuva, cinco quilômetros a pé para lecionar na escola rural de sua localidade. Que paradoxo! Ou seria apenas uma triste contradição? O professor é tudo, a ele se destina muito pouco ou quase nada.  

Professor de ensino fundamental e médio no Brasil ganha pouco. Ganha obviamente menos que professor de país desenvolvido. Ganha quase a metade do que recebe o magistério de país que leva educação realmente a sério. Ganha menos do que colegas de outros países sul-americanos como o sempre citado Chile. Os ricos podem pagar mais e nós não? Será que realmente priorizamos a educação? Quem paga melhores salários a professores obtém resultados melhores com os alunos. Matemática simples e verificável na prática. Quem duvida só tem uma coisa a fazer: estudar o relatório 2020 da OCDE intitulado “Educação em relance”.  Um professor brasileiro, na média de ensino privado e público, ganha cerca de 26 mil por ano enquanto um europeu consegue em torno de 50 mil. Pesa muito.

Professores brasileiros ganham em média 13% menos que os chilenos. Na competição interna com outros profissionais com mesmo nível de formação, professor perde também: ganha quase 30% menos. Ser professor de ensino fundamental e médio exige um grande amor por uma atividade cantada em prosa e verso, louvada em discursos políticos, especialmente em época de campanha eleitoral, mas desvalorizada no relatório da hora da verdade: o contracheque. Legislação até existe. Só falta cumprir. Oito estados não pagam o piso fixado em norma federal. Tudo neste Brasil continental, em termos de educação, é diferente, exótico, instável ou utópico. Quase sempre para pior. As salas de aulas têm mais alunos do que fora daqui. É ônibus lotado.

Ficamos na primeira tabela, entre 32 países listados, quando se trata de números de alunos em sala de aula: décimo lugar até o quinto ano do fundamental; sexto lugar em aglomeração nos estágios do 6 e 9 ano. Como fazer ensino de qualidade quando se tem de lidar com um cotidiano sobrecarregado de dificuldades, de carências e de obstáculos? Não somos o país que mais paga impostos no mundo nem o que mais gasta com alunos por ano. Somos certamente um dos países a entregar um dos piores serviços pelos impostos arrecadados e a mal remunerar os professores de quem se espera a construção do futuro de nossos filhos e netos. Paga-se pouco, cobra-se muito e espera-se tudo.

    


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Nem todo homem (mas todo homem)

Texto de Paty Cozer

@patycozer 

Nem todo homem acha que mulher que rebola até o chão é puta. Mas todo homem já foi incentivado a pensar assim.

Nem todo homem assobia para mulheres na rua. Mas todo homem conhece outro que faz isso.

Nem todo homem debocha do corpo de uma mulher. Mas todo homem reconhece esse comportamento em seu círculo de amizade.

Nem todo homem tem vergonha de chorar. Mas todo homem cresceu ouvindo que menino não chora.

Nem todo homem se considera o rei da selva, macho alfa e pegador. Mas todos são incentivados a agir como tal pelos familiares, pelos amigos ou pela mídia.

Nem todo homem vira para o lado e dorme depois de gozar, esquecendo que há outro ser humano ali. Mas todo homem é condicionado a pensar que tudo bem fazer uma dessas. Que tudo bem transar no automático.

Nem todo homem tem medo ou se sente ameaçado por uma mulher no ambiente de trabalho. Mas todo homem já viu uma colega sendo inferiorizada, chorando ou tendo que impor respeito.

Nem todos estão conscientes do quanto suas palavras e atitudes podem impactar. De como tudo aquilo que fazem chega até uma mulher.

Nem todos conseguem perceber a influência do machismo na própria trajetória. Alguns, infelizmente, jamais conseguirão olhar com carinho para seus pais, tios e avôs. Outros nem terão a chance de mergulhar em si mesmos, em busca de cura e de amor.

Mas eu não perco as esperanças.

Há homens fazendo o caminho inverso.

Há homens procurando terapia.

Há homens dispostos a equilibrar a balança.

Às vezes, confesso, me pergunto onde eles estão. Em seguida me lembro: não é fácil desabrochar. Não é fácil reconhecer que você passou boa parte da vida fazendo merda. Causando mal. Para pra pensar: quantas mulheres você já magoou, feriu, diminuiu e fez chorar?

Tá tudo bem. A dificuldade de vocês é a minha também.

Ninguém quer admitir que foi (ou é) algoz.

Mas quanto antes um homem reconhecer o desequilíbrio no seu próprio ser, maior a chance de uma cura coletiva acontecer.

Por isso, coragem, homens, Vocês têm esse poder.

A energia masculina que habita em mim acredita desesperadamente na que habita em você.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...