quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Idiossincrasia é isso aí!

Durante anos e anos essa palavra me intrigou de uma maneira idiossincrática. Ninguém parava para pensar em idiossincrasia como eu. Por isso, essa era a minha idiossincrasia de analisar essa tal de idiossincrasia.

Cada vez que me deparava com esse vocábulo, eu me intrigava e me prometia pesquisar idiossincraticamente sobre seu significado, radicais gregos, latinos e livres, importância histórica e, obviamente, ortografia. Mesmo porque (confesso ...) sempre achei que o certo era "idiossincracia". Daí minha preocupação com sua importância histórica:

Depois da monarquia, a oligarquia. Depois da oligarquia, a democracia. No meio de tudo isso, a "Idiossincracia" advinda de Idocrásio, o Peculiar, na Roma Antiga. Aliás, sempre achei que idiossincrasia poderia ser um daqueles neologismos engraçadinhos para descrever a forma do governo atual. Sacou ?

Uma vez, até apelei para um dos maiores mestres que já tive, o professor de língua portuguesa Platão (quase dois metros de altura), e perguntei o significado de tal palavra. Num sorriso de canto de boca, ele quase sem me olhar, disse - Não sei não ... - Eu já sabia que essa era a resposta mais inteligente que poderia ouvir(com um didatismo idiossincrático!). Só assim, encubei essa dúvida por anos e anos, para que finalmente o dia chegasse. O chamado surgiu quase que espontaneamente:

-Aurélio !! Cadê você ?!

E ele, com a prontidão de sempre, na página 739, coluna 2, linha 3, me respondeu: [do grego Idiosygkrasía] 1. Disposição do temperamento do indivíduo, que o faz agir, de maneira muito pessoal, à ação dos agentes externos. 2. Maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa.
Só isso ? Essa palavra espetacular, enorme, misteriosa, magnífica, e, agora posso dizer, idiossincrática só quer dizer isso: Peculiar ... Pôxa, seu Aurélio! Tirando o nome em grego essa definição não é nem um pouco idiossincrática. É como falar que "defenestrado" é sinônimo de "bonito"! 

É triste como sempre idealizamos fantasticamente o desconhecido. Só na nossa ingênua cabeça que: Morena, 1,78 m, 62 Kg, olhos verdes e cabelos compridos são sempre uma mulher linda! Quem garante ela não tem uma cicatriz da testa até o queixo, seja vesga, com a língua presa, manca, cabelos compridos porém em todas as direções desrespeitando inclusive a Lei da gravidade, tudo isso, é claro, de maneira indubitavelmente idiossincrática.

domingo, 18 de agosto de 2019

Detesto esse tal futebol gourmet


Gosto de arquibancadas divididas, por massas gigantescas se possível.
Detesto torcida única, um crime contra o futebol.
Gosto de times entrando em campo um de cada vez, para serem festejados ou vaiados.
Detesto equipes pisando juntas o gramado, ainda mais quando acompanhadas do pessoal da arbitragem.
Gosto de bandeiras, papel picado e bobinas desenrolando no ar.
Detesto torcidas que se comportam como platéias de teatro e se limitam a aplaudir.
Gosto de sinalizadores, não aquele naval, que mata, mas o inofensivo, de efeito meramente visual. E, admito, sinto saudades do espocar dos rojões.
Detesto bandeirinhas de plástico, em geral encomendadas pelo próprio clube ou seus patrocinadores, que coxinhas balançam abobadamente.
Gosto de ver grades e alambrados repletos de faixas. Trapos, como dizem os vizinhos de sudamerica. E grandes bandeiras agitadas até com bola rolando.
Detesto o aspecto asséptico das tais arenas esterilizadas com suas lanchonetes que servem capuccino e são planejadas apenas para esse tal torcedor-cliente.
Gosto de ver a casa lotada, o que só costuma ser possível quando os cartolas cobram pelos ingressos preços compatíveis com o poder de compra do torcedor.
Gosto do apoio incondicional, das vozes incessantes que vêm das arquibancadas e tomam a cancha. Da galera participando dos destinos da peleja.
Detesto animadores de torcida que determinam o que as pessoas devem gritar, cantar.
Gosto do futebol como ele é. Ou como era. Gosto do futebol como sempre foi.
Detesto esse tal futebol gourmet.

sábado, 10 de agosto de 2019

Assim a gente vai levando

Houve tempo em que pensei que nosso problema era o gerúndio. As coisas nunca ficavam prontas no Brasil, estavam sempre acontecendo. Vale para o país, vale para as pessoas. O gerúndio está nas nossas mentes e, por consequência, nos nossos atos. "Estou chegando". "Estou fazendo". "Estou terminando". Nada é definitivo para o brasileiro. Tudo está a caminho.
Fernando Pessoa dizia: "Minha pátria é a língua portuguesa". Disse muito com isso. Porque fronteiras você estende ou encurta, nacionalidades você adquire ou até rejeita e raças sequer existem. O que define um povo é a sua língua, porque a língua é a expressão do pensamento e o pensamento é a manifestação da alma. Não é por acaso que o inglês é objetivo, que o francês é romântico, que o espanhol é explosivo, que o italiano é dramático e que o alemão rasca. É porque americanos são objetivos, franceses são românticos, espanhóis são explosivos, italianos são dramáticos e alemães podem ser rascantes.
O brasileiro, o que é? Um procrastinador. O brasileiro deixa para depois, espera um pouco e faz de última hora. Donde, o apreço pelo gerúndio.
O bom da vida é o gerúndio, porque, quando não há mais gerúndio, não há mais nada a fazer: acabou.

Portugueses raramente empregam o gerúndio. Se empregassem, não teriam esgarçado o mundo entre os séculos 15 e 16, e Camões não teria cantado tão belamente que as armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca d'antes navegados, passaram ainda além da Taprobana.
Eu, aqui, estou planejando conhecer a distante Taprobana. Ou seja: também eu, brasileiríssimo que sou, vivo no gerúndio, assumo esse comportamento e não critico mais nossos compatriotas que, quando você pergunta como vão, respondem:
– A gente vai levando.
Ao contrário: concluí que essa é uma prova de sabedoria. Porque, na verdade, todos vivemos no gerúndio, todos vamos levando. Estamos envelhecendo, o mundo está sempre mudando. A vida é um grande gerúndio. Como o gerúndio, ela é uma forma verbal sem ser um verbo, ela é quase um substantivo, mas nem tanto ou talvez muito mais do que isso.
O bom da vida é o gerúndio, porque, quando não há mais gerúndio, não há mais nada a fazer: acabou.
Você se olha no espelho todos os dias e acha que vê a mesma cara. Ilusão. Você não é mais o mesmo, você mudou, porque muda a cada dia, a cada minuto, neste instante deixou de ser o que já foi. Você está em transformação, como tudo o mais a sua volta.
O grego Heráclito dizia que ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes, porque, quando entrar, nem ele nem o rio serão mais os mesmos. Foi um rio que passou em minha vida, cantava Paulinho da Viola. O rio não passou, o rio está passando. O rio é o gerúndio líquido. O Brasil é o gerúndio em forma de um buquê de terra de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Como autêntico gerúndio, o Brasil nunca está pronto. Que bom. Nem eu. Estou me aprontando. Estou aprendendo. Estou vivendo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Todo Dia Ele Faz Tudo Sempre Igual

Paródia de uma canção de Chico Buarque
Todo dia ele faz tudo sempre igual. 
Todo dia ele faz tudo sempre errado e acha que é normal. Nos sacode às seis horas da manhã com uma bomba da sua incontinência verbal. E nos apavora com a sua boca de capitão. Num dia, ataca a ciência e demite o cientista por lhe contar o que não queria ouvir. No outro, haja paciência, elogia torturador. No terceiro, sem a menor decência, declara que não há fome no Brasil. Todo dia ele diz que vai se ocupar de nós e essas coisas que diz todo militar. Diz que está nos esperando em 2022 e nos acena com suas mãos de rasgar jornal e de assinar decretos ilegais.
Todo dia nós só pensamos em nos mandar.
Meio-dia, nós só pensamos em Portugal. Depois pensamos no dinheiro para ganhar e nos calamos como quem acredita que vai dar. Seis da tarde, para sair no Jornal Nacional, ele chama o Ustra de herói nacional e jura que não está louco de atar. E nos pega na saída com vontade de sumir. E diz que ama o país e essas coisas que diz todo político para enganar. E nos assusta com sua boca incontida de soltar palavrões, preconceitos e retirar direitos com a facilidade de quem admira ditador. Num dia, defende agrotóxicos para vender. No outro, ainda mais tóxico, manda desmatar a Amazônia a varrer. Num dia defende o nepotismo. No outro, combate o comunismo montado em seu cavalo chamado Passado.
Todo dia ele nos pede para ficar e promete que tudo vai mudar.
Meia-noite, ele jura amor à pátria e nos tortura de quase sufocar. E nos apavora com seus olhos vermelhos da ditadura militar. Todo dia ele faz tudo sempre igual, tudo sempre errado, tudo combinado, mas diz que não é estratégia, que é seu jeito de ser e de governar. Nos sacode às seis horas da manhã como se fosse um quartel com um sorriso de general de Pinochet. E nos atucana com sua boca de semear más notícias em geral. Todo dia nós só pensamos em dar o fora ou em saber quando é que ele vai cair. Fazemos contas e mais contas para saber quando ele vai sair. E dormimos com uma dose de rivotril.
Todo dia, a gente canta que ainda é cedo para desesperar e brinca de acreditar que não há nada demais e tenta até virar de lado e dormir sem chorar. Todo dia ele faz questão de recomeçar. E conta vitórias, planeja reformas, exulta e insulta com a mesma inclemência, chama golpe de revolução, achincalha gay de malandro e entoa o velho refrão: Brasil, ame-o ou deixe-o. Avante, Brasil, salve a nação. Todo dia a gente só pensa num jeito de fugir enquanto ele corta mais verbas da educação.
Todo dia ele nos sacode com o espantalho da Venezuela e nos manda para Cuba se não estamos contentes. E garante que vai nos livrar dos vermelhos, acabar com os aparelhos, revirar nossos espelhos, reinventar nosso futuro, tirar o gigante do escuro. Assim vai.
Todo dia ele faz tudo sempre igual, bate continência para o Trump, faz declarações disparatadas, supera o dia anterior com algo mais radical. E a gente suspira, padece, decresce e só pensa em poder partir. Mas partir para onde, José? Fuga não há mais. Todo dia ele faz tudo sempre igual. Ai, ai.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...