sábado, 30 de maio de 2020

O golpe está a caminho!

O Brasil marcha à beira do abismo institucional. No Esfera Pública, da Rádio Guaíba, Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e mais novo pilar do governo Bolsonaro, defendeu a destituição dos onze ministros do STF por ação das Forças Armadas a pedido do presidente da República. Nada mais do que isso.

A Polícia Federal está dividida. Tem a PF de Jair Bolsonaro que, por mera coincidência, depois de demitido Sérgio Moro e trocado o superintendente do Rio de Janeiro, deflagrou operação contra o governador Wilson Witzel, inimigo do presidente da República. E tem a PF do Supremo Tribunal Federal que detonou operação, por coincidência, contra os acusados de financiar fake news bolsonaristas. A guerra é total. Bolsonaro avisou que poderá partir para o descumprimento de alguma decisão judicial. O general Heleno alertou, falando do pedido de apreensão do celular de Bolsonaro, que a medida poderá ter “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”. Precisa desenhar ou fica claro que o militar ameaça com um golpe fardado?

Jair Bolsonaro quis evitar, a todo custo, que o seu ministro Abraham Weintraub fosse depor, conforme determinação do ministro Alexandre de Moraes, sobre sua impressionante declaração na famosa reunião ministerial de 22 de abril clamando pela prisão dos “vagabundos” do STF. O capitão sabe que seu soldado Weintraub é um barril de pólvora. Se for apertado, o estrago pode ser grande. Contudo, o "valentão" arregou na hora H e permaneceu em silêncio durante seu depoimento (lembrando a célebre música do saudoso Bezerra da Silva "...você com um revólver na mão é bicho feroz, feroz. Sem ele anda rebolando e até muda de voz...". O presidente da República também não quer que seu braço direito, o “neutro” Heleno, tenha de dar esclarecimentos sobre sua nota golpista. O inquérito do STF sobre as fake news é considerado inconstitucional por não ter partido do Ministério Público. O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, quer o arquivamento da investigação, embora até os arbustos de Brasília saibam que tem disseminação de notícias falsas e quem paga a conta dos pacotes.

 Se alguém acha que a possibilidade de ruptura (nome mais sofisticado para o velho golpe, que antes usava tanque nas ruas e agora não se sabe como será) é teoria da conspiração, Eduardo Bolsonaro, o filho que queria ser embaixador nos Estados Unidos com sua experiência de fritar hambúrguer, acaba com qualquer dúvida: “Eu até entendo quem tenha uma postura mais moderada, vamos dizer, para não tentar chegar em um momento de ruptura, um momento de cisão ainda maior, um conflito ainda maior. Eu entendo essas pessoas que querem evitar esse momento de caos, mas, falando bem abertamente, opinião do Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de se, mas de quando isso vai ocorrer”. Pelo jeito, só falta escolher a data e o cabo e o soldado que irão fechar o STF.

No twitter, o presidente Bolsonaro disse que “algo de muito grave está acontecendo com nossa democracia”. Mas ele não se referia ao pedido de prisão de governadores por sua ministra Damares Alves nem ao desejo de encarceramento dos magistrados da suprema corte expresso por seu intrépido escudeiro Weintraub. Falava das medidas contra os ataques às instituições de parte de parlamentares, empresários e militantes e contra a divulgação como notícia de fatos que não aconteceram. Tudo muda rapidamente. Houve um tempo em que se criticava o financiamento de “blogues sujos” com grana pública. Hoje, o Banco do Brasil é acusado de bancar blogues que espalham fake news. Bolsonaro bateu na mesa: “Não teremos mais um dia como ontem [quarta]. Acabou, porra!!!”

O que fará?
O golpe está a caminho? 

Está vindo, ao menos, no grito.








quarta-feira, 27 de maio de 2020

Rescaldo da fatídica reunião ministerial

Antes tarde  do que omisso: o que sobrou da divulgação da reunião do ministério? Um país abalado pela sua baixaria? Uma nação debochada? Indiferença?

Vejamos a situação. A mais famosa reunião ministerial brasileira era a da noite de 23 de agosto de 1954, no Catete, da qual Getúlio Vargas saiu para a morte. Agora, com a liberação do vídeo do encontro de 22 de abril de 2020 comandado por Jair Bolsonaro, passamos a outro patamar: do histórico ao pornográfico. É possível que em termos jurídicos nada afete Bolsonaro no que pode ser visto em quase duas horas de gravação. Politicamente não é de duvidar que o presidente da República saia fortalecido junto aos seus eleitores fanáticos. A história reterá o baixo nível da reunião, os 37 palavrões compartilhados pelo presidente e seus ministros, as ameaças às instituições, o pendor autoritário dos envolvidos, o despudor e, acima de tudo, o voluntarismo desenfreado.

O que se vê de obsceno? Bolsonaro defendendo armar a população para uma possível guerra civil; Damares Alves propondo prender governadores por suas ações contra a pandemia; Ricardo Salles clamando pela aprovação,  sem participação do Congresso Nacional, de medidas para desmontar as regras de proteção ambiental, “passar a boiada” na canetada, “neste momento de tranquilidade”, enquanto a mídia fala do coronavírus; Abraham Weintraub pedindo a prisão dos vagabundos do STF; Paulo Guedes alegando que salvar pequenos dá prejuízo e aproveitando para exigir a privatização do Banco do Brasil; o presidente prometendo interferir em cada ministério para ter os seus pleitos atendidos.

Sérgio Moro jura que o conteúdo da reunião prova a sua denúncia de que Bolsonaro o ameaçou de demissão se não pudesse interferir na Polícia Federal. É o método Moro de fazer provas: por justaposição e ilação. Se A disse que e aconteceu B então fica provado que A levou a B. Tudo leva a crer neste caso que sim. Obviamente que Bolsonaro queria trocar o superintendente da PF no Rio de Janeiro, tanto que fez isso. Mas no vídeo a fala do presidente tem algo de genérico, embora, em outro momento, ele olhe para Moro. Dará espaço a interpretações e entrelinhas jurídicas. A fala faz sentido quando inserida no conjunto de ameaças anteriores à reunião e de fatos posteriores a ela. Bolsonaro está mais vulnerável a ser processado por crime de responsabilidade, cuja palheta é ampla, como descumprimento da dignidade do cargo, do que por crime comum. O Centrão está sendo adoçado com o que mais gosta, cargos, para confirmar a improvável inocência do presidente.

Na reunião ministerial vê-se um governo chulo, vulgar, paranoico e descontrolado. A tal liturgia do cargo, se um dia existiu, acabou. O ministro Celso de Mello prestou um grande serviço à nação ao liberar as imagens. Agora sabemos como falam os doutos que dirigem o país quando se sentem à vontade. Pode-se especular que nunca tantos seres bizarros tiveram, ao mesmo tempo, tanto poder. Pode um ministro pedir a prisão de um membro do STF pelo simples fato de que os magistrados, no exercício das suas atribuições constitucionais, contrariam os interesses do executivo? Pode um presidente dizer que está armando a população para que ela se defenda de algum ditador imaginário?

O Brasil saiu menor da reunião dos mentecaptos. O general Mourão passou o tempo todo sorrindo ao lado de Bolsonaro. Parecia dizer: atolem-se, atolem-se, que estou pronto para assumir. O que mudaria? A patente do presidente.

Ressentimento e grupo: Uma anedota para se entender o comportamento político

  Sabe aquele ditado: “os inimigos dos meus inimigos meus amigos serão?”. É sobre isso que se trata o ressentimento político que afeta o com...